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Ninfomaníaca, de Lars von Trier, e os limites da liberdade de expressão


Joe conta a história da sua vida para desafiar o falso moralismo de sua audiência. Foto: divulgação.

Escrevo esse texto inspirada nos últimos acontecimentos do ignóbil debate nacional sobre a liberdade de expressão.


Esta semana, um tolo de nome de marca de bicicleta e que tem como profissão ser "influencer digital", seguindo a moda atual, teceu uma série de comentários infelizes a respeito de um fato histórico do qual ele tem muito orgulho de mostrar que não sabe nada: o nazismo. Ele estava acompanhado de dois deputados federais igualmente incapazes de tecer qualquer comentário minimamente adequado sobre o tema.


Como se não bastasse, uma horda de oportunistas e trouxas de todo tipo expôs sua imbecilidade ao estabelecer com todos os urros que os pulmões permitem que a fala do infeliz é apologia ao crime de ódio e que ele tem que ser punido com todos os esforços do aparato de repressão do Estado burguês.


A turba escolheu o twitter como principal rede social para vomitar suas condenações e dizer a frase vexatória mais repetida da última semana: “liberdade de expressão tem limites”. A conclusão é unânime e une todo tipo de fauna política, principalmente de uma direita que se autodenomina de esquerda.


Esse texto visa refletir sobre esta situação a partir do cinema, que sempre nos inspira a entender a nossa perversa realidade.


Em 2011, o cineasta dinamarquês Lars von Trier passou por um entrevero semelhante. O cenário foi o Festival de Cannes. Na ocasião, o diretor e seu elenco estavam lançando um filme muito bom chamado Melancolia (Melancholia).


Era a coletiva de imprensa e, em um dado momento, ao ser questionado sobre estética nazista, Lars von Trier começou a dizer um monte de bobagens e, ao final, encerrou a resposta com esta frase sarcástica: “Ok, I´m a nazi”.


O que se seguiu foi um escândalo de escala global e, como o esgoto cultural pós-moderno demanda, o cancelamento do diretor, que foi declarado persona non grata pelo Festival de Cannes e um nazista por toda imprensa internacional, incluindo os hegemônicos jornais brasileiros.


Lars von Trier protestou, pediu desculpas e, em 2013, lançou uma obra-prima chamada Ninfomaníaca (Nymphomaniac): uma resposta de gênio a toda essa histeria contra a liberdade de expressão, especialmente a inflamada pela pequena-burguesia que se diz de esquerda, incluindo jornalistas que se autointitulam progressistas.


A obra é dividida em dois Volumes, com um total de 5h30 de duração na versão do corte do diretor (director´s cut). É um fenômeno cinematográfico sobre a forma do filme e, de quebra, sobre seus materiais, principalmente o tema do discurso politicamente correto.


O enredo segue um fio. Em uma noite fria, o recluso Seligman (Stellan Skarsgård), ao voltar de uma venda judaica onde compra chá e bolo, encontra Joe (Charlotte Gainsbourg) caída em um beco. Ela está toda machucada e suja. Ele oferece para chamar a polícia, mas recusando, ela prefere um chá. Ele então a leva para casa e Joe passa a noite a contar a história de sua vida.


O que vemos é um jogo cinematográfico poderoso, que depende muito da atenção de quem assiste e de sua identificação ou não com um dos personagens, sem questionar minimamente o que está sendo mostrado. Uma dose de distanciamento brechtiano e outra de raciocínio minimamente dialético são necessárias.


Seligman mostra-se um ouvinte compassivo, cheio de citações intelectuais, que interpreta as experiências de Joe à luz de uma racionalidade iluminada e de uma moral complacente. Ele parece um psicólogo. Mas será que é isso mesmo? Será que Seligman, com suas referências à música de Bach e a Marcel Proust, é tão confiável assim? E Joe? Será que tudo que ela conta aconteceu mesmo? Será que ela está fazendo uma confissão ou tentando arrancar segredos de Seligman?


E você que assiste? O que o filme está te mostrando sobre nosso momento histórico? Como anda seu grau de adesão à subjetividade pós-moderna? Como tudo está amarrado a cenas de sexo explícito, cada um saberá até onde vai sua aceitação ao atual lixo moralista.


Uma coisa é certa: não é fácil achar uma película que explicite de maneira tão categórica as falácias, arbitrariedades e perigos autoritários do discurso politicamente correto e do identitarismo reacionário no contexto histórico do capitalismo tardio como Ninfomaníaca. O filme é uma necessidade.


(Em 2016, Ninfomaníaca tornou-se objeto da minha tese de doutorado na FFLCH-USP, uma pesquisa inédita e única. O forte da análise é a discussão sobre foco narrativo e ponto de vista no cinema. O título é Ninfomaníaca, de Lars von Trier: narrar em tempos perversos. Leia aqui.)


Streaming

A versão comercial (de 4 horas) de Ninfomaníaca (Volume 1 e Volume 2) está disponível no Netflix, Telecine, Globoplay e Now.

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