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Sem Teto, Nem Lei: uma distopia de Agnès Varda


Mona tenta escapar do capitalismo, porém a jaula é muito maior do que ela imagina. Imagem de Sem Teto, Nem Lei, de Agnès Varda (1985). Foto: divulgação.

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1985, o filme Sem Teto, Nem Lei (Sans toit ni loi), de Agnès Varda, merece ser revisto à luz da atual conjuntura histórica e social.


No enredo, a atriz francesa Sandrine Bonnaire, então com 18 anos, interpreta Mona, uma andarilha que é encontrada congelada em um vinhedo no interior da França.


A partir do relato das pessoas que cruzam com ela nos seus últimos dias de vida, o filme constrói um retrato da jovem, dos tipos sociais e do ambiente hostil onde ela circula.


O resultado compõe um retrato da França naquele momento histórico, ao mesmo tempo que propõe uma discussão sobre a atitude anticapitalista da personagem principal.


No começo do filme, Mona parece uma mulher livre. Seus únicos pertences são uma mochila pesada, uma barraca e a roupa que veste no corpo.


Ela faz o que muitos jovens europeus costumavam fazer no verão: acampar pelo continente e viver alguns meses de pequenos serviços, como ajudar nas colheitas em sítios e fazendas.


Porém, quando o filme começa, já é inverno, e Mona continua sua peregrinação, recusando-se a voltar a uma vida considerada normal, “de secretária”, como ela diz em um momento do filme.


Em sua primeira cena, um jovem que a viu na praia tece um comentário poético: “parecia que ela tinha vindo do mar”, diz.


Sozinha, ela vive da ajuda de desconhecidos: pessoas lhe dão água, uns lhe oferecem carona, outros sanduíches.


No entanto, ao contrário do cenário idílico que muitas vezes os panfletos turísticos vendem como a imagem do interior francês, Mona acampa em meio a paisagens desoladas, semiurbanas, onde há muito concreto, sujeira e poucos recursos, como postos de gasolina e até cemitérios.


Um cenário distópico que descreve com precisão o ambiente capitalista do qual ela tenta fugir.


A falta de conforto e de banho, o frio e a fome são constantes e, em um dado momento, a exaustão cobra seu preço. Os encontros fazem com que ela vá perdendo os poucos pertences e, por fim, não sobra mais nada e ela se perde de seu propósito.


Em nossa avaliação, há dois caminhos para a compreensão do filme: o primeiro é seguir Mona e tentar entender suas motivações.


O segundo é bem mais interessante: é compreender como, na forma do filme, as informações que temos sobre Mona são mediadas pelas pessoas que a encontram e, por isso, ela é, na verdade, uma construção dos pontos de vista daqueles que cruzam com ela.


O resultado é fragmentado, incompleto, parcial e, muitas vezes, carregado de preconceitos daqueles que estão imersos no mesmo ambiente, confundido com realidade.


Esta segunda opção necessita, no entanto, de um esforço de distanciamento por parte de quem assiste ao filme. Ela permite não só que conheçamos Mona, mas também esses tipos que se contrapõem à sua figura. Mais importante: nos obriga a questionar nossa adesão ao que está sendo contado e mostrado sobre ela.


As contradições que emergem na história estão justamente nos conflitos representados por essas interações entre a protagonista e os demais personagens que também levam vidas desoladas e, muitas vezes, sem rumo tanto quanto ela.


A abordagem é possível porque Sem Teto, Nem Lei é um filme no qual Agnès Varda utiliza o conceito brechtiano de estranhamento como característica principal de sua forma. É possível dizer que se trata de um exercício épico, conforme o legado deixado pelo dramaturgo alemão.


Com isso em mente, podemos entender a complexidade do filme, que vai muito além de um possível julgamento sobre o comportamento autodestrutivo da protagonista.


Na verdade, Mona nos mostra a impossibilidade da liberdade despossuída enquanto a propriedade privada se mantém intacta.


Naquele momento histórico, o neoliberalismo e a globalização estavam se consolidando como as novas etapas do capitalismo. Atualmente, este apresenta rachaduras violentas, resultado deste processo.


A utopia solitária de Mona está destinada ao fracasso, pois o capitalismo que a cerca não permite dissidências.


Em sua caminhada pelo vale capitalista, ela não encontra as fronteiras e não percebe que é impossível escapar sozinha. Não basta somente a resistência individual.


Neste ponto, há um recado também para as esquerdas que se deixam levar por uma forma de resistência sem organização e sem rumo concreto.

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