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Jia Zhang-Ke e a Revolução Comunista Chinesa



Imagem de "Nadando Até o Mar Ficar Azul", do diretor Jia Zhang-Ke, 2019.

Em 1o. de outubro de 2019, a Revolução Comunista Chinesa completou 70 anos. O período transformou um país antes praticamente feudal na grande potência econômica do século XXI que agora está ameaçando de maneira concreta o imperialismo americano.


Para refletir sobre o caminho revolucionário chinês, o diretor Jia Zhang-ke realizou o documentário Nadando até o mar se tornar azul (Swimming out Till the Sea Turns Blue / Yi zhi you dao hai shui bian lan), um dos destaques da 44a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2020.


O filme começa em um encontro literário que reuniu um grande número de escritores e acadêmicos chineses em uma aldeia na província chinesa de Shanxi, em maio de 2019. O documentário não é sobre o encontro em si, mas as memórias de quatro gerações de escritores.


As histórias são contadas por meio de entrevistas com descendentes do falecido escritor-ativista Ma Feng e dos testemunhos de três escritores ativos hoje: Jia Pingwa (nascido na década de 1950), Yu Hua (nascido na década de 1960) e Liang Hong (nascida na década de 1970). Eles recontam suas próprias vidas e carreiras literárias, o que permite ao filme tecer uma história dos 70 anos da Revolução Chinesa a partir de suas experiências pessoais.


“Meu principal interesse no filme não é simplesmente revelar desenvolvimentos sócio-políticos mais amplos, mas compreender como essas mudanças afetaram os indivíduos. Experiências individuais, especialmente descrições detalhadas de memórias individuais, são cruciais para a compreensão da história. Só explorando-os posso sentir que realmente fiz incursões na história", explicou o diretor no press release oficial de divulgação.


Sobre o percurso para realização do filme, ele comentou:


“Depois de fazer Dong (2006, sobre o pintor Liu Xiaodong) e Useless (2007, sobre o estilista Ma Ke), eu queria fazer um documentário sobre escritores chineses. Não é que eu tenha uma queda por trilogias. Como um leitor, sempre tive grande respeito pelos escritores que se esforçam para se manter a par em um mundo em rápida mudança, às vezes em circunstâncias extremamente difíceis. Quando descobri que um vilarejo em minha província natal, Shanxi, era palco de um grande festival literário, quis ver com meus próprios olhos. (O lugar se chama Aldeia da Família Jia, mas não tem ligação direta com minha própria família.)”.


A obra em 18 “capítulos”, com títulos como “comer”, “a colheita”, “o pai”, “a mãe”, “o filho”, “a doença”, etc. Sobre esta estrutura, JIa Zhang-ke explicou:


"Nosso ponto de partida foi filmar no festival, e logo percebemos que estávamos experimentando não apenas uma jornada na literatura chinesa contemporânea, mas também uma jornada na história espiritual do povo chinês. Além da conversa literária, um novo protagonista inesperado para o filme de alguma forma apareceu: o campesinato que habita o vasto interior da China. Os escritores do filme contam suas próprias histórias, o tipo de história que pesa na mente da maioria dos chineses. Eu queria que as imagens parecessem dignas, quase esculturais, e que os 18 capítulos fossem estruturados de forma tão casual quanto nuvens fluindo. As pessoas neste país vivem como rios que desembocam no mar, viajando com cargas pesadas, para algum lugar azul e claro ao longe. Suas viagens são muito parecidas, mas cada pegada merece ser lembrada.”


A importância do filme neste contexto é exemplar. A história desses últimos 70 anos é a história das lutas cotidianas das pessoas que fazem e fizeram a Revolução como seres humanos em situações sociais concretas. Desde a infância na pobreza até a prisão de um pai, desde a luta em uma guerra até a possibilidade de entrar na universidade. A diferença entre a vida no campo e a vida na cidade ainda define muitos chineses. O passado e o presente se comunicam em memórias e imagens.

Jia Zhang-ke contextualizou esta reflexão:


Na verdade, as vidas e escritos dos quatro autores apresentados são paralelos aos 70 anos de história da China contemporânea desde 1949. O primeiro é o falecido Ma Feng, cujo período mais criativo foi os 17 anos anteriores à Revolução Cultural – o tempo conhecido como “o período da construção socialista” na China. Sua escrita estava ligada a reformas sociais dramáticas. Literatura e arte revolucionárias são assuntos inevitáveis quando se trata de construir um retrato espiritual da China moderna. O coletivismo na década de 1950 resolveu alguns problemas e causou outros novos. Esse é o ponto de partida histórico para compreender nossa estrutura social atual e nossa literatura contemporânea.”


Os outros três escritores vistos no filme abrangem os anos desde então. Jia Pingwa, nascido na década de 1950, foca a “Revolução Cultural” e suas consequências (ou seja, as décadas de 1960 e 70), uma época cheia de traumas e desamparos. Yu Hua, nascido em 1960, é o terceiro escritor do filme. Suas experiências datam da década de 1980, período de “reforma e abertura” da China, quando houve um degelo social e o individualismo reviveu. O quarto escritor, Liang Hong, é uma mulher nascida no final dos anos 1970. Seu relato coincide com o presente. Quero destacar a última pessoa apresentada no filme, o filho de 14 anos de Liang Hong. Seu interesse e confusão sobre a história de sua família me dão a oportunidade de dar uma espiada no mundo espiritual da próxima geração.


Acredito que ao se referir ao “mundo espiritual da próxima geração”, ele está usando uma expressão parecida com um conceito de Raymond Williams denominado “structures of feeling“, ou seja, uma certa capacidade ou sensibilidade de captar a cultura. Liang Hong lembra um garoto ocidental: celular, headphones de marca, ele gosta de física e de jogar videogame.


Sentado às margens de um rio assoriado, que parece estar secando, a questão proposta é: para onde está indo a Revolução Chinesa? Quando a mãe começa a lhe ensinar o dialeto de sua antiga aldeia, percebemos que há um trabalho a ser feito: ensinar as novas gerações para que elas não percam contato com sua própria história e com a História.


O filme é um alento em um mundo de sensibilidade ocidental curvada ao presente perpétuo e fragmentário do capitalismo tardio. Celebrar a cultura e a história a partir de seus escritores é também mostar que a literatura é a salvaguarda do espírito de um povo. Fazer da História o motivo de um filme tão sensível é um ponto fora da curva no medíocre debate midiático que nos achincalha diariamente.


No Brasil, a Companhia das Letras publicou em português três livros de Yu Hua. Ele é o único dos quatro escritores do filme com livros publicados aqui.


Por fim, ver os idosos chineses se alimentando em um centro comunitário logo no início do filme deixa um recado para o ex-B dos BRICS: o que os últimos 70 anos de capitalismo fizeram pelo Brasil e o que farão nos próximos?


Streaming

Ainda não há, no Brasil, distribuição deste filme nos provedores de serviço de streaming. Outros filmes do diretor, no entanto, podem ser encontrados no Google Filmes e no Mubi.




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