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Desempregado: “você é a quinta roda”


Still de Kuhle Wampe
Imagem de Kuhle Wampe, filme dirigido por Bertold Brecht em 1932: a situação dos trabalhadores alemães às vésperas da ascensão do Terceiro Reich. Foto: arquivo.


O dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht (1898-1956) foi um dos mais importantes artistas do século XX.


Deixou como legado peças de teatro, filmes, poemas e ensaios que foram, antes de tudo, um exercício contundente de arte revolucionária voltada para os trabalhadores alemães.


Brecht foi um intelectual marxista que viveu todas as contradições da social-democracia da República de Weimar e assistiu de perto a ascensão do nazismo.


Em um ensaio intitulado Cinco dificuldades no escrever a verdade, de 1934, ele disse:


“Quem, nos dias de hoje, quiser lutar contra a mentira e a ignorância e escrever a verdade tem de superar ao menos cinco dificuldades. Deve ter a coragem de escrever a verdade, embora ela se encontre escamoteada em toda parte; deve ter a inteligência de reconhecê-la, embora ela se mostre permanentemente disfarçada; deve entender da arte de manejá-la como arma; deve ter a capacidade de escolher em que mãos será eficiente; deve ter a astúcia de divulgá-la entre os escolhidos. Essas dificuldades são grandes para os escritores que vivem sob o fascismo, mas existem também para aqueles que fugiram ou se exilaram. E mesmo para aqueles que escrevem em países de liberdade burguesa”.


É excepcional perceber como esse texto ainda é atual em nosso ambiente de notícias falsas e redes sociais.


Com seus experimentos sobre o teatro épico, Brecht consolidou uma arte que questionava a forma da representação e o ponto de vista burguês sobre o mundo.

Mais do que isso, não perdoava as posturas pelegas de sindicatos ou de partidos de esquerda alemães no período.


Sua obra-prima A Santa Joana dos Matadouros (1931) é uma aula sobre capitalismo monopolista e fracassados movimentos de trabalhadores.


Muitos cineastas contemporâneos utilizam as teorias de Brecht como base de filmes questionadores sobre o nosso atual momento histórico.


Diante da conjuntura brasileira, recorrer a Brecht é um alento e uma fonte inestimável de ensinamentos sobre o papel da arte na luta revolucionária.


Por isso, selecionamos um poema que é um exercício dialético sobre o desemprego.


Ele faz parte de uma coletânea intitulada Do Guia para os Habitantes das Cidades, escrita entre 1925-1930, na qual o dramaturgo reflete sobre a Berlim industrial que, na época, contava com mais de 4 milhões de habitantes. (A título de comparação, a população de São Paulo não chegava a 850 mil pessoas.)


Sobre esta conjuntura, a análise de Tércio Redondo, professor da USP e tradutor de Brecht, é precisa:


“A Berlim que Brecht conheceu era, portanto, palco de um crescimento populacional vertiginoso, sustentado pela permanente chegada de novos contingentes de trabalhadores. Nesse contexto, a precariedade das condições de vida das massas proletárias, decorrente entre outras coisas do ambiente insalubre nas fábricas, dos baixos salários e da moradia inóspita, constituía ponderável fator de insegurança social, mesmo durante os “anos dourados” de 1924 a 1930.”


(Enquanto escrevo esse texto, a mídia burguesa anuncia que dobraram o número de favelas no Brasil nos últimos dez anos).


É em um contexto de desemprego que Brecht escreveu o poema a seguir:

Estamos com você na hora em que você percebe

Ser a quinta roda

E sua esperança se esvai.

Nós, contudo,

Não o percebemos ainda.

Notamos

Que você apressa a conversa

Procurando por uma palavra

Que lhe possa ensejar a saída

Pois o que importa

É não chamar a atenção.

Você se levanta no meio da frase

Diz irritado que quer sair

Nós dizemos: fique! E percebemos

Que você é a quinta roda.

Não obstante, você se senta.

Você permanece sentado conosco na hora

Em que percebemos que você é a quinta roda.

Você, contudo,

Não o percebe mais.

Permita-me dizê-lo: você é

A quinta roda

Não pense que eu, que o digo,

Seja um canalha

Não apanhe um machado, antes

Apanhe um copo d’água.

Eu sei, você não ouve mais

Contudo

Não diga em voz alta que o mundo está ruim

Diga-o baixo.

Pois não são as quatro rodas que sobram

E sim a quinta

E o mundo não está ruim.

Está

Cheio.

(Você já ouviu isso)

Tradução: Tércio Redondo


O objetivo do poema, a partir de uma voz coletiva que se dirige ao indivíduo em primeira pessoa (você), é escancarar a função do desempregado no capitalismo.


As estrofes do poema opõem situações de alienação coletiva e individual em uma ambiente extremamente hostil e desesperançado, dentro do contexto alemão da época: é bem possível pensar que o país passaria por uma revolução socialista se esta não tivesse sido interrompida pelo nazismo. A frase final “você já ouviu isso”, em parênteses, é um chamado à consciência do próprio leitor.


Contudo, as palavras reverberam também na catastrófica situação que vivemos hoje. Um desempregado não é um trabalhador que está fora do mercado de trabalho. Ao contrário, sua existência é muito útil para esse mercado por pelo menos dois bons motivos: o desempregado mantém os salários baixos e mantém os empregados submissos e obedientes, afinal, ninguém quer estar nesta situação.


A chave do poema está na crueza das palavras da quinta estrofe que é dita pelo coletivo ao indivíduo que foi demitido.


Para Tércio Redondo, este é um momento de constatação da realidade no qual coletivo e indivíduo devem mostrar consciência em um momento de crise, como a que vivemos atualmente, e não perder o horizonte revolucionário:


No salve-se quem puder da economia recessiva, o maior risco enfrentado pelos trabalhadores é o da perda dessa consciência. É essa situação que explica a parte final da fala coletiva no poema, a qual, numa leitura apressada, pode ser interpretada como manifestação de cinismo e indiferença.


(...) Todavia, esse choque advém mais da forma que do conteúdo da fala e configura um procedimento que não é estranho à maneira como Brecht costumava se expressar politicamente, em atitude sempre avessa ao rodeio e à conciliação.


(...) Ao companheiro prestes a se desgarrar da militância e ingressar nas hostes da extrema-direita, o gesto do afago seria despropositado e virtualmente danoso. Despropositado por não acrescentar nada de concreto à luta coletiva e danoso por seu virtual potencial de sedação política. O discurso pode ser ríspido e impiedoso, mas essa dureza atende a propósito bem definido.


(...) À quinta roda o que se pede, de modo direto e responsável, é que renuncie ao desespero e à rendição, que avalie a situação com o máximo de objetividade, que a compreenda no contexto mais geral da crise e não como problema particular do indivíduo vitimado pelo desemprego.


E dos sindicatos e partidos políticos de esquerda, principalmente os da atual conjuntura brasileira, pede-se a responsabilidade na condução dessa árdua luta.


As citações deste texto estão nos seguintes livros:


BRECHT, Bertold. Teatro Dialético. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

REDONDO, Tércio (org.). Do guia para os habitantes das cidades. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2017.

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